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Prato do dia: as mil frutas do Helton
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Outra Cozinha
Cozinha subversiva
 
      Almoço de domingo #7: Mundo sentido muda sentidos


Grafitti no morro do Querosene, em São Paulo. Foto: Milena de Andrade.


Nessa sexta-feira que acabou de passar, me apareceu uma fotografia no email que me fez lembrar de uma experiência bem legal que vivi nesse último julho: foi uma visita ao Sítio Frutas Raras, do Helton Muniz, que fica em Campina no Monte Alegre, no interior de São Paulo.

Já tem quase um mês que isso rolou, mas eu ainda não sabia muito bem como eu ia contar essa história, e nem mesmo se eu deveria fazer isso por aqui. É que eu não queria fazer um relato porque achei que ia soar meio chato. Mas olhando a fotografia que aportou no email, e depois lendo o texto que a acompanhava, fui reconhecendo que tinha um monte de coisa da minha experiência que não tava ali. E eu entendi que eu tinha alguma razão. Eu não tinha mesmo que falar sobre essa visita.

A experiência que eu passei não é e nem tem como ser a mesma que estava lá na reportagem, nem se a reportagem tivesse sido escrita por mim. Eu tinha entendido que o que eu tenho pra falar não é sobre o sítio, mas sobre experiência. Assim mesmo, sem artigo. E foi o que eu escolhi compartilhar nessa newsletter hoje.
 

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Prato Principal: as mil frutas do Helton

 

A reportagem tinha acabado de ser entregue no meu email pela newsletter do Risca Faca, um projeto de jornalismo com cara de slow, e que assumidamente se coloca como construção narrativa, contação de histórias, ao invés da “verdade dos fatos”. Porque, né, vamos assumir: isso não existe.


E tava lá: As mil frutas do Helton.


Na foto que abre a reportagem, eles não contam, mas eu sei: o Helton tá segurando um mamey, uma das poucas frutas que dá no inverno. O mamey é uma fruta mexicana que se parece fisicamente com um abacate — só que é marrom e tem um biquinho. Repara lá. Foi olhando o formato que eu gravei o nome da fruta, no meio de tanta informação que vivenciei naquele dia. Associei a forma com um peito, que se mama, e ficou assim na memória.

A gente sabe se o mamey tá maduro porque a polpa alaranjada fica macia, como também acontece com o abacate. E o gosto é o mais incrível: doce de abóbora!

Olha que genial! Não é abóbora, é doce de abóbora mesmo. Uma fruta com gosto de doce que gente inventa.

Foi o Helton quem descreveu assim o sabor da fruta. Catamos um mamey caído embaixo da árvore — me abaixei procurando por um macio, e encontrei. Helton abriu a fruta com as mãos, me deu uma metade que eu dividi com o Gustavo, que fazia a visita comigo, enquanto dividiu sua parte com a cadelinha. Sim, aquela mesma que aparece em alguma outra foto da reportagem. Ela gosta de frutas, assim como eu tenho um gato que é fã de manga. Contei o caso e rimos um pouco disso.


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Me chamou muito a atenção a capacidade do Helton de descrever sabores. Essa foi a primeira coisa que eu falei quando caímos de volta na estrada indo em direção ao sul de Minas, nossa próxima parada naquela viagem.

Descrever sabores não é uma tarefa muito fácil. Primeiro, porque a gente tem de ter um leque meio grande de referências pra usar de comparação, e torcer pra que quem tá ouvindo a descrição também já tenha experimentado a referência (e se eu nunca tivesse comido doce de abóbora?). E segundo, porque mesmo tendo muitas referências, colocar isso em palavras é outro registro. É outra história.

O Helton conseguia fazer isso muito bem. As descrições de tudo o que provamos enquanto visitamos seu sítio era muito precisa, e ao mesmo tempo, inusitada. Eu tava sempre rindo, espantada com o quanto o Helton também sabia cultivar as palavras.

A riqueza desse trabalho de pesquisa do Helton tá nesse cultivo. Ele aprendeu procurando, conversando, lendo, mas principalmente, plantando, comendo, experimentando. É o trabalho de uma vida. Não só da vida do Helton, mas da vida da biodiversidade, e das nossas vidas, espoliadas de contato com essa fartura de sabores que existe por aí.

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Pois é. Alguma coisa disso que estou contando pra você está ali naquela reportagem do Risca Faca. Mas nem tudo. O mamey da foto, que foi tão importante pra mim a ponto de me fazer lembrar de detalhes, não está nem mesmo nomeado. As minhas impressões sobre como o Helton é bom em descrever sabores, também não foi algo que eles escolheram falar. Ou sei lá mesmo se notaram.

Cada relato é único porque cada experiência é única. E por mais sedutor que o relato seja, nunca dá conta de contar o todo da experiência. Não é falha minha, nem do pessoal do Risca Faca. As coisas são assim mesmo.

Eu não tinha me animado, até então, a escrever um relato sobre essa visita ao Sítio de Frutas Raras porque eu sabia que não tinha como fazer caber em palavras. Porque pra você entender um pouco de como foi, ia ser muito mais legal se você tivesse ido. Mas não dá pra ir em tudo, e é pra isso que servem (também) as histórias.

Eu acho que o que eu queria era que você sentisse, ao menos em parte, o que eu sinto. Mas como fazer isso?

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Isso me fez pensar sobre a importância do sentir para produzir sentido. Falar sobre nossas experiências é importante. Saber fazer relatos tem imenso valor. Aliás, foi lendo sobre outras pessoas que visitaram o sítio do Helton — especialmente o Guilherme Ranieri, que falou da sua visita no Matosdecomer, e a Neide Rigo, no Come-se, — que eu também quis fazer o passeio. Guardei essas leituras no coração, e quando tive a oportunidade, eu fui. 

Além das 3 histórias do sítio que eu linkei aí em cima (do Guilherme, da Neide, e do Risca Faca), há agora a minha. Mas se um dia você tiver a oportunidade de conhecer esse lugar, a gente já sabe: não vai ser a mesma história. Cada um vai viver de um jeito, do seu jeito. Quem conta um conto, aumenta um ponto, não porque inventa, mas porque aumenta o bolo dos ‘causos’.

Mas as vezes ainda me bate uma sensação de que escrever sobre essas experiências ainda é pouco. Relatar não é pra mim o fim. É o meio. O meio pelo qual eu espero que outras experiências possam estar mais próximas de se tornar reais. De que quem lê o relato ache um jeito de tomar pra si o que tá sendo contado, seja devolvendo em outros lugares interessantes que já conheceu Brasil afora, seja sentindo vontade de entender melhor qual é a onda de conhecer um colecionador de pé-de-frutas.

Ter a oportunidade de vivenciar transforma nossa relação com as coisas. Mundo sentido é o que muda sentidos, feito o que diz o grafitti que escolhi pra abrir essa newsletter.

E o que eu escrevo pode servir pra tocar um pouco você que está lendo, mas ao mesmo tempo, eu adoraria ir além disso. Eu queria que te tocasse um muito. A ponto de você querer me contar de outras coisas que você conhece, de outros passeios que você fez, pra eu ter vontade de te contar mais coisa ainda dessa visita no Sítio. E outras visitas legais que eu saio inventando por aí.

Ando mais interessada em conversas do que em escrever textos. Quer dizer, não sei se existe diferença entre as duas coisas, mas eu acho que tem. Essa vontade, me parece, tem produzido um certo efeito sobre o jeito que eu escrevo. Eu reconheço que sou meio dura, meio formal de mais, e culpo mesmo os anos de escrita acadêmica. Mas aos poucos acho que vou pegando o jeito. Ainda é pouca gente que se animou de responder minhas newsletters, mas eu fico feliz com cada email que recebo. E acho que é isso que quero.

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Eu queria deixar uma sugestão hoje: o que você acha de me contar sobre algum passeio que você fez que envolva comida? (engraçado isso, porque eu não sei como um passeio pode não envolver comida! É coisa minha, né?). Tem algum lugar que você já esteve, feito o Sítio de Frutas Raras do Helton, em que comida tá bem no centro mesmo, e que você gostou de ter conhecido? O que você experimentou de diferente nesse passeio? E porque você acha que essa experiência fez sentido? Conta um caso, manda uma foto pra mim. De repente, a gente troca umas figurinhas.

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Pra fechar, apesar de ter contado um pouco do mamey, do cultivo de palavras e da cadelinha que gosta de frutas, vou deixar duas outras fotos e historietas por aqui. Pra te motivar a escrever pra mim. outracozinha@gmail.com



Bananeiras gigantes ao fundo, e nas mãos do Gustavo e do Helton, um mangará (o coração da penca de banana) e um cacho. Imenso, precisou dos dois pra carregar! Eu achei que parecia um dragão. E essas bananas da foto ainda tem uma particularidade: elas tem sementes, de um jeito que mal da pra comer a banana.

 


Aqui, uma imensa touceira de ora-pro-nobis, o mato mineiro (feito eu) por definição. Tenho uma muda em casa, e é o que vai rolar de almoço nesse domingo. Eu não consegui reconhecer a ora-pro-nobis no sítio do Helton porque me concentrei em examinar os frutos que eu nunca tinha visto (sim, ela dá frutos também!) e me esqueci do todo. E porque a minha está num vasinho bem pequeno, diferente dessa, toda evoluída aí.

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Sobremesa: Cardápio Supimpa

 

Pra quem também tá mais a fim de conversas, de intimidade e de partilhar experiências, minha sugestão é adoçar a boca escolhendo outras newsletters nesse cardápio supimpa produzido pela Aline Valek. Com direito a repetir, porque ela está sempre atualizando a lista e acrescentando coisas interessantes. E ainda teve o trabalho de explicar porque o formato newsletter é tão genial. Vou me furtar de falar mais sobre isso, e deixar vocês com ela. Concordo com cada palavra!

 

Tome um café. Ou um chá. Mas depois de sair daqui. Chega de links por hoje!

 

Um abraço e até logo!

Carla Soares, do OutraCozinha


[Almoço de Domingo #7]

Almoço de Domingo, 2016.


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Carla Soares, do OutraCozinha · Feito com amor · no interior do Brasil, :: 85000000 · Brazil

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